Ana

Laura

Lia

Joana

J�lia

Pina

S�lvia

Marta

Ism�nia

Sofia

Amanda

 

 

 

Engra�ado as coisas que o tempo faz com a gente. E responsabilizo o tempo porque me custa crer que somos n�s mesmos que fazemos ou deixamos de fazer �quilo que o tempo depois vai nos mostrar sem d�, nem piedade. Se olho para o espelho, o que vejo? J� nem sei em qual esquina perdeu-se a Ana que um dia julguei conhecer. E o que fiz para impedir? Que escolhas me levaram a esse estado de interroga��o? O que me faz escrever agora, entre as flores marfins do papel parede e a janela aberta para o jardim? Onde est�o as meninas que at� bem pouco tempo precisavam de meus cuidados?

Acredito muito no sil�ncio. Gosto de existir no sil�ncio. Mas n�o imaginei viver em sil�ncio. H� uma diferen�a: � preciso o barulho, a algazarra, a confus�o para nos fazer lembrar da exist�ncia do sil�ncio... O sil�ncio, pelo sil�ncio, me incomoda. E quem diria que um dia eu me encontraria assim, nesse sil�ncio que suplica o grito?

Sinto falta que sintam � minha falta. Mais at� do que a experi�ncia de viver sem Armando, o que me cega � a inexist�ncia de tudo �quilo que antes dependia de mim. E o que dizer do futuro? Para que tantos espa�os nessa casa? Laura se casa nesta semana... A minha pequena Laura...

Maio de 1944.  


 Dei agora para buscar motivos que me fa�am perder o sono. Mas e quem disse que o fato de perambular pelos corredores insone me torna mais leve a exist�ncia? �Mam�e, tome logo um rem�dio e pare com essa bobagem�, disse-me Lia com a incredulidade caracter�stica da juventude... Respondi-lhe que era preocupa��o, apenas. Passado o casamento da irm�, o sono voltaria ao normal.

O normal depois do sono: levanto-me cedo, vou a cozinha, verifico os preparativos para o caf� da manh�, passo pelo quarto de Lia (que claro, n�o vai sentar � mesa conosco), chamo Laura (que resmunga, mas logo em seguida, se levanta), volto ao meu quarto, dispenso os favores da empregada e arrumo eu mesma a minha cama, depois tomo o banho, troco a camisola por uma saia cinza e uma blusa qualquer, escovo os dentes e arrumo os cabelos (n�o passo perfume que � para n�o me distrair, no restante do dia, com o cheiro das flores).

Talvez eu tenha raz�o: passado o casamento, tudo volta ao normal. Mas de que normalidade eu poderia estar falando agora?


Maio de 1944.


Quando Armando falou da decis�o de sair de casa, minha primeira rea��o foi sorrir. Pensei nas in�meras vezes em que imaginei minha vida longe da tranq�ilidade familiar. O que voc� faria, Ana? Na maioria das vezes, eu n�o tinha a resposta para essa pergunta.

E agora, o que voc� far�? Tamb�m ainda n�o encontrei respostas. A �nica coisa que consegui foi lembrar de minha m�e dizendo que Deus era um grande humorista. N�o sei se acredito em Deus, mas como todas as v�timas, n�o duvido de seu humor.

 

Maio de 1944.


Santo Deus, como me sinto culpada! Se at� ontem me pesava a aus�ncia de Armando, hoje me pesa o imprevisto: n�o houve casamento. Laura est� em estado de choque. Ou�o os gritos dela, a confus�o das vozes de Armando, Lia, os amigos mais pr�ximos... Um abismo abriu-se sob os meus p�s. Vim com a desculpa de apanhar um calmante, o m�dico j� foi chamado, o papel est� umedecendo com as minhas l�grimas. O que vou fazer?

Maio de 1944.


Laura ainda dorme. S�o duas horas da tarde e Laura ainda dorme. A casa toda parece estar adormecida. N�o, a casa toda parece estar anestesiada. Em cada canto de parede h� um lamento de Laura. Como se depois do grito, viesse a letargia. Ontem, antes mesmo do calmante que Laura foi obrigada a tomar, me pareceu que minha filha entrava numa esp�cie de coma. N�o que seus movimentos estivessem estanques. Era ela quem estava suspensa. Como tamb�m suspensa ficou a minha pr�pria dor. De repente, Armando j� n�o do�a tanto. Algu�m estava precisando de mim. Laura est� precisando de mim. E � estranho ter que admitir, mas a dor de Laura me faz sentir-me novamente viva. Como se o ar tivesse voltado aos meus pulm�es. Sou a m�e que vai nin�-la em sua dor. Que vai sufocar o seu choro, acalentar as suas noites perturbadas pelo infort�nio. Sou m�e. E Laura, novamente, � a minha pequena Laura.

Maio de 1944.


Hoje completa uma semana desde o casamento que deveria ter acontecido. Laura n�o come e nem sequer lembra-se de pentear os cabelos. Lia continua alheia a tudo. Como se o infort�nio da irm� n�o lhe dissesse nada. Como se n�o pudesse, ela pr�pria, estar passando por isso. Como pude ter deixado crescer entre minhas pernas uma pessoa t�o voltada para si mesma? Talvez a culpa seja de Armando.

Maio de 1944.


Laura resolveu mudar-se para o apartamento. N�o houve quem a dissuadisse da id�ia. Tentei falar com Armando, mas ele achou melhor acatar a decis�o da filha. Me espanta a incapacidade do homem de enxergar al�m da imagem que a vis�o fotografa na retina. �Ora, Ana, deixe de exageros. Faz parte do processo de cura essa hist�ria de querer levar o vestido e o ba� do enxoval. Deixe que ela ven�a sua pr�pria dor. Logo, logo, voc� ver�, Laura estar� recuperada�. Por que n�o consigo acreditar nisso?

Junho de 1944.


 

�Logo, logo, Laura estar� recuperada�. Tento me agarrar a esta frase todas as vezes que vejo Laura. E n�o foram poucas desde o dia em que ela, resoluta, mudou-se para o apartamento. No primeiro dia, apesar do desespero de v�-la saindo com as malas, quis acreditar que Armando estava certo. E mesmo quando eu ouvia aquela voz baixinha dizendo que algo estava errado, eu quis acreditar. Mas o medo tinha fincado ra�zes que a raz�o paterna desconhece. Algo estava errado. Eu sabia. Eu pressentia. Laura acredita que a data do casamento ainda chegar�. Como posso explicar isso a Armando? Como posso dizer � Lia que a irm� congelou em um tempo do qual j� conhecemos o desfecho?

Junho de 1944.


O mundo inteiro parece perder o sentido. O jardim carece cada vez mais de carinhos, o caf� anda aguado e as roupas para consertar fazem pequenos montes que procuro esconder em ba�s, para n�o me atormentar. A casa, cada vez mais solit�ria, sussurra can��es que desconhe�o. Falam de um tempo long�nquo, de uma Ana diferente desta que vejo no espelho. Tento reaprender a exist�ncia, olhar para mim mesma e encontrar algum sentido para o que restou de uma vida que eu acreditava ter constru�do. E se j� n�o reconhe�o a mim mesma, tamb�m n�o reconhe�o as mulheres que um dia foram minhas crian�as, alimentadas no seio que hoje se acomoda fl�cido no tecido. Como se tudo ao meu redor tivesse acompanhando a pr�pria decad�ncia do corpo - cada vez mais opulento. Talvez eu tenha que reconhecer os limites e as formas deste novo corpo para poder parecer familiar tudo aquilo que hoje o cerca. Como se as paredes da constru��o tamb�m tivessem adquirido volume, textura. Como se o tempo tamb�m castigasse a vitalidade de Lia e Laura. Como se fosse ele o respons�vel pela figura de Armando, que tamb�m n�o consigo reconhecer.

Junho de 1944.


Um m�s. Um m�s e Laura continua do mesmo jeito. Ou cada vez pior? Ser� poss�vel que sou a �nica a perceber o abismo que minha filha cavou para si mesma? Lia acha gra�a das atitudes da irm�, diz que faz parte da mente fantasiosa de Laura. E assim como o pai, acredita que � quest�o de tempo para que ela caia em si. Mas o que sabem sobre o tempo? Ou melhor, o que sabem sobre os outros? Cada vez mais vejo em Lia a mesma dificuldade de Armando: o mundo de ambos parece girar apenas em torno de si mesmos. Mas o que estou dizendo, meu Deus?

Julho de 1944.


Laura esteve hoje aqui. Perguntou-me, como sempre, sobre a lista dos convidados. Trouxe num papel a letra arrumada desenhando os nomes que tenho decorado na mem�ria dolorida. Falou-me que o vestido ficou perfeito - como no dia da prova. Que a pintura no apartamento tinha terminado. Que o quarto estava lindo. Que precisava decidir sobre o penteado. As flores seriam do campo. Coloridas, leves, displicentes. A Igreja j� est� acertada, n�o � mesmo mam�e? Sim, minha filha, a Igreja j� est� acertada.

Julho de 1944.


A cozinheira me perguntou sobre o jantar. E pela primeira vez, em muitos anos, respondi-lhe que fizesse o que bem entendesse. Que n�o me importava se atrasasse, se esquecesse da sobremesa ou se colocasse a toalha vermelha ao inv�s da branca. Que n�o fazia id�ia se haveria algu�m para sentar � mesa, que pouco me importava se o vinho seria branco ou tinto. Que deixasse de lado o licor, e o principal, que n�o me incomodasse mais com essas perguntas. Pobre Maria. Ficou petrificada no canto da porta e n�o sabia onde meter as m�os que esfregava nervosamente. Sim, senhora. Sim, senhora. Sim, senhora. Sim, senhora. Mas alguma coisa, dona Ana? Sim, Maria. Esque�a tudo o que eu disse e fa�a omelete de atum com uma salada de aspargos. A sobremesa pode ser um creme de maracuj�. Use a toalha branca, sirva um vinho branco e deixe que o licor eu mesma decido na hora. Por um instante achei que ia me libertar do velho retrato. Por um instante.

Julho de 1944.