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Fevereiro de 1966. Mam�e, Voc� precisava estar
aqui para ver tudo o que estou vendo! A Europa � realmente linda e n�o sei lhe
dizer o que mais me encanta! Temos conhecido pessoas interessant�ssimas!
Fernando fotografa tudo o que encontra pela frente. Essas s�o as nossas �ltimas
fotos em Londres... Hoje mesmo pegamos o v�o para Paris. Au revoir! Ism�nia. Paris, fevereiro de 1966.
Maman,
Ontem fomos ao Louvre. Preciso dizer mais alguma coisa? Seguimos a dire��o Denon e, claro, vimos La Gioconda. Voltaremos amanh�, e depois de amanh�, e depois, e depois. N�o quero desgrudar t�o cedo do Louvre!
P.S. Mandarei fotos dos caf�s.
Beijos,
Ism�nia. fevereiro de 1966. Sinto um aperto no peito quando vejo as fotografias mandadas por Ism�nia. Mas de onde vem esse medo se tudo o que enxergo � felicidade em seus olhos? Minha Ism�nia est� mesmo apaixonada... Como a vida parece simples quando somos jovens. Tudo � t�o bonito e compreens�vel! Eu tamb�m j� fui jovem... Ou n�o?
Silvia, 1966. Os pesadelos voltaram. Primeiro vejo a figura de Jorge engasgando com uma espinha de peixe, o rosto se transfigurando at� tornar-se uma massa disforme. E eu ali, sentada na outra ponta da mesa, com um barrig�o enorme, olhando para o nada. E quando finalmente me dou conta de que o barulho que escuto vem do corpo de Jorge caindo no ch�o, abro uma sonora gargalhada. Acordo, assustada. E sinto que gritei, embora Jorge ressone ao lado. Ando pela casa no mesmo sil�ncio que vejo em Jorge quando a chuva come�a a molhar os vidros das janelas. E mesmo sem querer, lembro dos �ltimos dias de mam�e no sanat�rio. Os cabelos, apesar da idade, j� embranquecidos. O rosto magro, a pele opaca, o vestido largo... A �nica coisa que parecia viva naquela mulher eram os olhos, que refletiam um brilho estranho. Uma mistura de pureza e abandono que incomodava. Sinto medo quando as lembran�as voltam-me � mente. Sinto medo por mim e por Ism�nia.
Silvia, 1966. Outro postal de Ism�nia. E a vida inquietando-se ao meu redor. Procuro afastar as lembran�as, mas elas parecem voltar repentinamente. Pensei em falar com Marta. Desisti. N�o saberia por onde come�ar. Tantos anos sem tocar no assunto, o que eu poderia lhe dizer? Que sinto medo? Que sinto a loucura espreitando minha casa? Tudo isso � loucura. Sei que �. Ent�o porque n�o paro de pensar sobre tudo o que aconteceu? J� n�o estava enterrado? Por que os pesadelos de novo? A imagem de mam�e...Queria poder falar com Jorge, mas n�o saberia por onde come�ar. Sinto os grilh�es do sil�ncio apertando-me a carne. J� n�o me controlo. O medo pareceu vir para ficar. O que est� acontecendo, afinal?
Silvia, 1966. N�o me cabem mais perguntas. Voltei a tomar calmantes e durmo como uma crian�a. Mantenho-me ocupada o dia inteiro e resolvi fazer algumas mudan�as na cozinha.
Silvia, 1966.
It�lia, 1966.
M�e,
Sinto-me em casa. Chegamos � It�lia! E como s�o diferentes dos franceses, os italianos! Eu realmente tenho a sensa��o de que algumas fam�lias nos adotaram por aqui. Lembrei muito de voc�s. Mais ainda de voc�, m�e! E se as mamas n�o fossem t�o carnudas eu diria que era voc� quem estava nas cozinhas preparando manjares. Mando o endere�o do hotelzinho. Ficaremos nele por um bom tempo! Portanto, escreva-me!
Beijos, Ism�nia.
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