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Pobre Silvia. Sinto pena de minha irm�... Sabe-se l� o quanto teve que abrir m�o da vida para fugir da loucura... E o que recebeu em troca? Por isso n�o me canso de pensar que n�o cabe ao homem a escolha. Gostaria de poder ajud�-la, mas s�o tantos anos de sil�ncio. E o que posso fazer por Ism�nia se ela pr�pria j� selou seu destino? O passado n�o nos deixa esquecer. Tenho medo do sil�ncio.
Agosto de 1982. Fico olhando para a vida de Silvia e me pergunto de onde tira for�as para cuidar, aos 57 anos, de duas pequenas criaturas. E pensar que todos os sonhos silenciosos de Silvia estavam em Ism�nia. Ainda hoje n�o sei se minha sobrinha sabe o destino da av�. Mas conhecendo Silvia, como eu conhe�o, posso apostar que n�o. Para minha irm�, esconder a sujeira em baixo do tapete sempre foi o melhor artif�cio. Se n�o cozinhasse um carneiro maravilhoso, eu diria at� que S�lvia jamais esteve sentada �quela mesa. Falamo-nos rapidamente ontem, ao telefone. Ism�nia continua no quarto.
Agosto de 1982 Falo de Silvia, mas eu mesma tenho d�vidas quanto ao que sinto vendo Ism�nia nessa situa��o. � um filme que se repete? Silvia escolheu o sil�ncio para n�o enlouquecer. E esse mesmo sil�ncio fez de Ism�nia a figura tosca de hoje. E eu? O que fez o sil�ncio comigo? Em que momento da minha vida resolvi ser o que sou? Em qual esquina derrubei na cal�ada a jovem sonhadora e rom�ntica para encarnar a mulher de hoje? Sil�ncio.
Agosto de 1982 Resolvi deixar de lado, pelo menos por um tempo, as preocupa��es com Silvia ou Ism�nia. N�o me parece justo que eu sofra com isso. Flora disse-me hoje que precisa de um tempo. O que � um tempo? Penso num espa�o em branco de cadernos minuciosamente preenchidos. Serei eu o espa�o em branco?
Setembro de 1982. Gosto do m�s de setembro. Al�m da sonoridade - setembro -, gosto das flores desabrochando. Do perfume que sinto quando passo pelas pra�as. Gosto do ch�o amarelo de minha casa. E das paredes fotografando a exist�ncia. Gosto do odor de lavanda nas camisas de Flora e dos doces em compotas comprados especialmente para os domingos sonolentos. Gosto de setembro.
Setembro, 1982. Flora voltou para casa. Disse-me que n�o entendia as cartas encontradas no ba� do escrit�rio. Eram as cartas de Cl�udio. Olhando hoje, � dist�ncia, procuro compreender os sentimentos e eles me parecem estranhos. J� n�o sei mais afirmar se o que sentia era realmente amor. Desconfio que n�o. Talvez fosse um desejo �ntimo de puni��o, vindo provavelmente das lembran�as de minha inf�ncia. Mas n�o posso negar que devo a ele, a descoberta de Flora. Minha doce Flora.
Outubro de 1982.
Que coisa estranha, o passado. Resolvi, juntamente com Flora, olhar as cartas do ba�. N�o tenho nada para esconder dela, e ela sabe disso. Quando nos conhecemos, havia acabado de me encontrar, pela �ltima vez, com Cl�udio. Foi Flora quem me acalentou, me cobriu as feridas invis�veis e abriu novas na carne virgem das sensa��es que hoje t�o bem conhe�o. N�o vou negar que no come�o tentei resistir. Pensava em mam�e e, principalmente, em S�lvia. O que diria ela? Depois percebi que esta era a vida que eu tinha. E que cabia a mim a escolha de como queria viv�-la. Ao contr�rio de minha irm�, resolvi viv�-la com verdade. Entreguei-me n�o s� a alma delicada de Flora como tamb�m � l�ngua quente de minha companheira. A mesma que ainda hoje, deitada ao meu lado na cama, me faz tremer a carne quando movimenta as m�os em baixo dos len��is. Flora, Flora...
Outubro de 1982.
N�o me importa o que pensam os outros a meu respeito. Dane-se o mundo. Dane-se S�lvia, com sua tez severa a bisbilhotar a calmaria de Flora. N�o perd�o minha irm� e acho desprez�vel que ela continue vindo at� aqui como se n�o soubesse de n�s. Como se Flora fosse apenas uma amiga, algu�m com quem divido as contas da casa para n�o pesar no or�amento. Pobre Flora. Sinto vontade de agarr�-la no meio da sala, diante de Silvia, para acabar de uma vez por todas com essa cortina de mentira que minha irm� insiste em levantar entre n�s. Mas Flora, com toda a sua timidez, foge de Silvia. Minha querida, tantos anos juntas e ainda �s obrigada a viver este circo armado pela incapacidade de S�lvia em lidar com o improv�vel da realidade. Como se nossas vidas coubessem nos or�amentos dom�sticos.
Outubro de 1982. |