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Deus, entrego minha vida
em tuas m�os. Janeiro de 1980. Fernando, meu amor, est�s me ouvindo? N�o consigo compreender o motivo pelo qual partistes antes de mim. N�o fizemos um trato? N�o envelhecer�amos juntos? Tanto mundo ainda para conhecer, Fernando... Logo, logo, com Sofia maior, poder�amos viajar juntos novamente. Far�amos isso nas f�rias escolares. Ah, Fernando, Fernando...
Janeiro de 1980. Tenho pensado muito em uma maneira de nos encontrarmos novamente. Mas os livros falam em pecado. Que pecado pode ser maior do que viver sem amor?
Fevereiro de 1980. Pecado. Pecado. Pecado. Orai, minha filha. Sinto que vou enlouquecer! Fernando, meu amor, o que vou fazer sem voc�?
Fevereiro de 1980. Os santos ficaram surdos. Conversa essa hist�ria de que escutam as nossas preces. Tamb�m n�o vou falar de Deus, porque preciso continuar a acreditar em alguma coisa. Algo al�m desse vazio que vejo ao meu redor. Talvez seja a ora��o uma esp�cie de esquecimento. Como uma dose de veneno que ministramos lentamente aos nossos inimigos.
Fevereiro de 1980. Um �dio crescente invade cada canto da minha exist�ncia. Sinto �dio por Fernando que teve a coragem de me deixar quando ainda t�nhamos tanto para viver. E sinto tamb�m pela figura controlada de mam�e. Sempre t�o correta, t�o segura. Eu diria at� fria. Ou�o os passos tranq�ilos dela no corredor, as m�os delicadas abrindo lentamente a porta. E o sil�ncio que por tr�s dos barulhos da cozinha parecem impedir qualquer rea��o que fuja ao seu controle. O que faria mam�e se me encontrasse morta, aos p�s da cama? Provavelmente n�o emitiria um grito sequer. Sufocaria o barulho com as m�os no rosto. Congelaria os olhos na imagem e depois de alguns segundo correria ao telefone. N�o antes de dar ordens para que levassem Amanda e Sofia para passear.
Fevereiro de 1980.
Mam�e insiste em abrir as janelas do quarto! Quero a escurid�o, o sofrimento da luz t�nue que sai do abajur ao lado da cama. A claridade da manh� � uma ofensa aos meus sentimentos!
Mar�o de 1980. |