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Minha querida m�e,
Tenho uma novidade maravilhosa: voc� ser� av�! Isso mesmo, dona Ana, av�! Acabo de confirmar a gravidez e darei ainda hoje a not�cia para Cl�udio. Tenho certeza que ele ficar� radiante! M�ezinha, o que achas de vir passar uns dias conosco?
Beijos,
Lia. S�o Paulo, 1955.
M�ezinha,
N�o se aborre�a comigo, mas n�o acho uma boa id�ia, caso seja uma menina, darmos o nome de Laura. J� n�o sofremos o bastante? (E que Laura descanse em paz!)... Sim, minha m�e, tenho medo. E n�o me diga, por favor, que sou ego�sta. N�o posso me enterrar junto com a lembran�a de minha irm�. Por mais que isso lhe doa, � assim que penso.
Cl�udio recebeu a not�cia em sil�ncio. Acho que ficou em estado de choque! S� pode ser muita felicidade, n�o acha, mam�e? Por favor, venha nos ver. Venha me ver!
Beijos da sua filha,
Lia. Sinto enj�os insuport�veis nas �ltimas semanas. A barriga come�ou a crescer e quando olho para o espelho, vejo a figura futura de um hipop�tamo.
Lia, 1955.
Cl�udio viajou e s� retorna na pr�xima semana. Sinto-me s�. A casa arrumada me faz sentir saudades de algo que n�o sei definir. � como se um espa�o vazio me sussurrasse um segredo. Nesses momentos, agarro a vestimenta de hipop�tamo e reclamo a vida que cresce em meu ventre. Penso em mudar a cor da sala. Lia, 1955.
S�o Paulo, 1955.
M�ezinha,
Quando, afinal, vai resolver sair do seu ninho para dar colo � sua ca�ula? Cl�udio prolongou a viagem por mais uma semana. N�o quero ficar s� por tanto tempo! Venha, m�e. Assim poderemos sair juntas para as compras. Ou voc� esqueceu o enxoval da sua netinha? Sim, tenho quase certeza que ser� uma menina! Penso em dar-lhe o nome de Joana. Cl�udio n�o se op�s. Voc� ainda est� aborrecida por eu n�o ter escolhido o nome de Laura? N�o fa�a charme, dona Ana. Beijos, Lia. Remexendo nas gavetas de Cl�udio encontrei um bilhete assinado por Marta. N�o lembro de ter ouvido falar de algu�m com este nome. Senti uma fisgada no est�mago. Por que ando procurando desarrumar as coisas?
Lia, 1955.
Sinto-me como um bal�o e j� n�o tenho �nimo para procurar nas lojas roupas que me caibam. Mam�e, como sempre, tenta me explicar que isso tudo � natural. Como posso me conformar com essa massa disforme que dificulta meu andar? Como me sentir atraente se tenho repulsa da imagem gigantesca que vejo?
Lia, 1955.
Ser� que conseguirei ser realmente uma m�e? Poderei realmente sentir amor por essa pequena criatura que cresce dentro de mim? Como ser� ela? Como serei eu, depois dela? Como ser� a casa? Como ser� a vida? Ser uma boa mulher foi relativamente f�cil aprender. Mas como aprenderei a ser uma boa m�e? Como vou conseguir manter a ordem das coisas que desconhe�o? Como planejar o que farei se j� n�o seremos mais eu e Cl�udio apenas?
Lia, 1955.
O que tem acontecido comigo? Por que esse sentimento de medo toma conta de mim? Tenho ficado muito tempo s�, deve ser isso. Tamb�m n�o consegui esquecer o bilhete... Aquele bilhete que devolvi � gaveta de Cl�udio e que procuro esquecer. Sei que � o melhor a fazer. Para que procurar respostas se n�o as quero ouvir? Resolvi pintar o quarto de Joana de rosa claro. E um pouco de amarelo que � para combinar com o corredor. Cl�udio concordou. Ali�s, nem sei se reparou que troquei as cortinas da sala. Mas acho que n�o. Assim como n�o reparou, h� alguns meses, as almofadas novas. Mas o que importa? Sei que me ama. Cl�udio me ama.
Lia, 1955. |