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J� n�o sei mais o que
fazer... J�lia chora todas as noites e me deixa louca! Tenho vontade de
abra��-la, mas sinto-me sem for�as. N�o sei o que dizer a ela, n�o sei como
explicar a aus�ncia do pai. O que vou fazer da minha vida? O que estar�o
falando de mim? Tenho �dio do sil�ncio complacente de papai! E o que dizer de
mam�e? Para ela, mesmo que n�o me diga, n�o fui boa o bastante para segurar o
marido. Mar�o de 1980. Uma das maiores vantagens que vejo em voltar para a casa de mam�e � que n�o preciso me preocupar com a rotina dom�stica. Tudo funciona. O almo�o? J� est� servido. O jantar est� sendo providenciado. As roupas j� est�o engomadas no arm�rio. J�lia j� voltou da escola, tomou banho e vai sentar � mesa... Da minha rotina, dou conta eu mesma. Chorar, fraquejar? S� mesmo aqui, entre as paredes do quarto que me cabe. Aberta a porta, sou um trator: levanto cedo, fa�o minha gin�stica, tomo o banho, vou ao trabalho, volto, almo�o, trabalho de novo, e volto no fim do dia.
Encontrei hoje com Marisa. Quem diria! A Marisa, casada! Fomos � loja juntas e comprei dois vestidos lindos! Hoje Ant�nio deve vir buscar Julia para tomar um sorvete. E eu, claro, vou deix�-la no port�o: linda e sorridente.
Abril de 1980. N�o encontrei Ant�nio ontem. A vida � isso: uns minutos de atraso, e tudo est� perdido.
Abril de 1980. Sinto raiva. Ou seria �dio? Raiva e �dio. Muita raiva. Muito �dio. E amor... Onde estar� Ant�nio? J�lia dorme. Todos dormem. Vou tamb�m dormir.
Abril de 1980. Ant�nio avisou que faria uma de suas viagens de neg�cio. O recado foi dado por mam�e. Por que ela n�o me chamou? Quando acordei do sono depois do almo�o, veio a not�cia. Quis agarrar seus cabelos, gritar aos quatro cantos da casa que deveria ter me acordado, desarrumar a porcaria de arranjo que enfeitava a mesa e me jogar ao ch�o. Mas n�o fiz nada disso. Sorri e respondi-lhe que j� imaginava que o pai de J�lia n�o poderia v�-la sempre. Tomei meu banho, escovei os cabelos e escolhi a melhor roupa. N�o deixei que alterasse nenhum m�sculo de minha face.
Abril de 1980. Tenho uma viagem marcada para o final deste m�s. Fiz quest�o de dar eu mesma a not�cia para Ant�nio. Mas ele pareceu n�o se preocupar. Disse que posso ir tranq�ila, ele se far� presente, � medida do poss�vel, para que J�lia n�o se sinta abandonada.
Maio de 1980. |