Ana

Laura

Lia

Joana

J�lia

Pina

S�lvia

Marta

Ism�nia

Sofia

Amanda

 

 

N�o � maravilhosa a juventude? Sinto-me uma ninfa hoje... Acordei com mam�e, como sempre, gritando-me da porta: voc� vai se atrasar, minha filha... Todas as m�es do mundo s�o iguais? Amanh� teremos nova recep��o em casa: convidados perfeitos, bebidas perfeitas, pratos perfeitos. E a vida, � perfeita?

 

Junho de 1941.


 Que vida arrumada, essa minha! A recep��o de ontem foi igual a todas as outras: �Nossa, Armando, como essas meninas cresceram!�; �Ana, o jantar est� maravilhoso!�; �Voc�s leram o �ltimo texto de M�rio de Andrade?�; �Laura, querida, vai seguir os caminhos de seu pai?�. Ora, ora... Ah! Ia me esquecendo: Lia aprontou tamb�m mais uma das suas. Disse no meio do jantar, depois de falarem por quase meia hora sobre M�rio de Andrade, que odiava os livros!

Junho de 1941.


"H� esperan�as, s� n�o para n�s", foi a frase de Kafka escolhida por papai para fechar o almo�o de hoje. E o que � a esperan�a, perguntei-lhe. Depois de um breve sil�ncio, respondeu-me que j� havia esquecido.

 Junho de 1941.


A falta de esperan�a de papai me faz pensar no amanh�. O que me reserva a vida? O que encontrarei naquela esquina n�o dobrada? O peito aperta quando penso que n�o sei o que procuro.

Junho de 1941.


�Como pode algu�m de 17 anos ser t�o melanc�lica?� Essa � a pergunta mais freq�ente que ou�o de mam�e quando estou calada. Nessas horas, penso que para mam�e a vida n�o reserva grandes altera��es: os compromissos, as tarefas, a rotina, as id�ias, o humor. Tudo sempre da mesma forma. Fico pensando na juventude dela. Como ter� sido? Mam�e n�o nos fala muito. Como se sempre tivesse sido essa senhora de respeito. De onde, ent�o, veio essa vitalidade que vejo em Lia? N�o de papai, sempre t�o austero e silencioso. Doem-me os dedos e a cabe�a pede a maciez do travesseiro. A esperan�a - ou a falta dela - j� n�o me interessa mais. Deixo para papai as leituras angustiantes. E as senten�as existenciais, aos fil�sofos.

Junho de 1941.


Alguma coisa parece estar mudando nesta casa. E me espanta Lia n�o estar percebendo. Ou ser� que ela n�o se deu conta de que papai, j� faz duas semanas, inventa desculpas para n�o jantar conosco? Mam�e sorri � mesa, � claro. Mas algo em suas m�os me diz que ela tamb�m se ressente. N�o me lembro de isso ter acontecido antes. � claro que nem sempre ele esteve conosco, mas isso quando precisava viajar. Estando aqui, nunca.

Julho de 1941.


A polidez � algo abomin�vel. Tenho �nsias de gritar a todos de que tudo n�o passa de uma mentira. As trocas de delicadezas, os agradecimentos que o bom conv�vio pede, ditos com um leve sorriso. N�o fosse aquela pequena tens�o no canto da boca de mam�e, eu diria que tudo continua como sempre foi. Mas h� a tens�o. E me pergunto em que fios ela se sustenta para que a boca n�o se arreganhe em insultos. Tudo t�o perfeito. T�o arrumado. Um quadro de natureza morta.

Agosto de 1941.


Hoje quis sacudir a aus�ncia de Lia. Sei que ainda � uma crian�a, mas ser� mesmo que toda crian�a est� alheia aos castelos que desmoronam? Porque ela continua dizendo suas bobagens a espera do riso condescendente de papai? N�o percebeu que o riso j� n�o existe? Pobre Lia, pobre Laura. O que ser� de n�s?

Agosto de 1941.


Quis falar com mam�e, mas ela tratou-me como a uma crian�a. Quis dizer-lhe que sei que algo mudou. Quis perguntar-lhe... Mas tamb�m n�o deixou. Falou da reuni�o de quinta, perguntou sobre o grupo de estudos, avisou que papai andava atarefado com umas quest�es de trabalho e pediu que eu tivesse mais paci�ncia com Lia. No final, susteve um sil�ncio inc�modo. Como se houvesse esquecido a fala da pe�a que encenava para mim. E quase acreditei que finalmente dividiria comigo os segredos dessa casa. Mas inclinou o colo sobre a minha cabe�a, alisou meus cabelos e sorriu maternalmente.

Agosto de 1941.


�Que fam�lia linda voc� tem, Armando�. Foi a frase do amigo rec�m-chegado da Europa. E todos concordaram. Inclusive eu.

Agosto de 1941.