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Palavras de chuva Silvia n�o perdoava
em Jorge o sil�ncio no qual se recolhia quando come�avam a grudar nas vidra�as
das janelas, os primeiros pingos da chuva. Sentia-se duplamente tra�da.
Primeiro, porque percebia no marido um peda�o de mundo do qual ela, S�lvia, n�o
fazia parte. E, depois, pela angustia que era tomada quando tinha que se
confrontar com o seu mutismo. Nunca quis dizer a Jorge o motivo pelo qual
odiava todo o tipo de sil�ncio - era uma lembran�a muito dolorosa e ela
preferia n�o despertar esses dem�nios da inf�ncia � o que a levava a n�o se
sentir � vontade para indagar-lhe as raz�es que o faziam ficar calado, olhando
por horas a fio, a chuva cair. Mesmo antes de o conhecer, Silvia havia feito uma escolha na vida. Tinha decidido viver com simplicidade - ainda que algumas vezes isso n�o passasse de apar�ncias. N�o era de falar muito e, ao contr�rio da irm�, Marta, n�o alimentava para si grandes ambi��es. Para ela, pouco importava as artes, a espiritualidade, as diferentes culturas, as pessoas e seus problemas reais ou imagin�rios. Achava que era muito ter sobrevivido e, por essa raz�o, n�o via sentido em nada que n�o fosse muito pr�tico. Nas noites em que se pegava divagando, os pensamentos harmonizando-se para bailarem em campos que a raz�o n�o governa, tratava logo de se colocar em movimento. Geralmente ia para a cozinha. Adorava cozinhar, especialmente comidas ex�ticas e apimentadas. No apartamento, comprado com o dinheiro da heran�a deixada pela m�e, Silvia convencera Jorge de ampliar a cozinha transformando-a num verdadeiro santu�rio de cheiros, cores e formas. E era ali que se deixava ficar para fugir dos fantasmas que, passados tantos anos, ainda a importunavam. Nessas ocasi�es, Silvia era capaz de preparar verdadeiros
banquetes: carnes flambadas com molhos temperados, pratos t�picos da culin�ria
mexicana, sopas de frutos do mar, saladas com frutas e vegetais importados, mousses, cremes, tudo, enfim, que se
encontraria no card�pio de um bom restaurante. Algumas vezes, Silvia
atemorizava-se pensando em todo o acontecido e principalmente em sua m�e, que
n�o escapou do sanat�rio. Talvez por essa raz�o, agarrava-se a tudo que em seu
redor pudesse provar que estava construindo para si mesma um destino diferente.
Via seu casamento com Jorge com a mesma benevol�ncia que uma m�e acaricia o
filho depois de uma travessura. Ele era, sem d�vida, um homem maravilhoso. E o
que dizer, ent�o, de Ism�nia? Silvia afundava-se nos olhos daquela criaturinha
e prometia em voz alta "Tu ir�s rodopiar muito por estas salas, minha
pequena. E poder�s sujar-te na areia do parque, ca�ar borboletas, salvar
passarinhos, tudo, enfim, que te cheirar a liberdade". Nesses momentos,
Silvia n�o conseguia conter as l�grimas. E preocupada que ningu�m a visse
daquele jeito, levanta-se bruscamente, fingia um suspiro e cantarolava baixinho
uma cantiga qualquer. Muito contida, pr�tica,
organizada, incapaz de uma brincadeira, Silvia �s vezes se perguntava como teria sido a vida se n�o tivesse tido
a inf�ncia que teve. Tudo bem que n�o foi sempre ruim, mas ela sabia que depois
do lago, do jantar, do carneiro, algo dentro dela tinha se partido. N�o
entendia como Marta conseguia ser t�o efusiva... Sentia quase inveja. Mas n�o,
pensava rapidamente, tenho realmente uma vida da qual n�o posso me queixar. E
al�m do mais n�o acredito em nada que possa preencher o esp�rito, nem tampouco se
existe um esp�rito. O que sei � o que vejo. S�o as listas de supermercado, a
conta de luz que n�o para de subir, as tarifas telef�nicas, o quarto de Ism�nia
que precisa ser pintado, o almo�o de P�scoa, as f�rias da empregada, a goteira
no quarto de h�spedes, e claro, minhas pimentas, condimentos, acelgas, molhos,
peixes, carnes, isso sim, � capaz de nos fazer mais leves, quase inebriados. Teve vontade de correr at�
Jorge e de pedir-lhe um abra�o. Mas quando passou com as bandejas e
depositou-as na mesa, viu que o marido estava longe. Ent�o deixou-se tragar tamb�m
por aquele sil�ncio de chuva e ficou ali, em p�, no meio do sal�o. |