Ana

Laura

Lia

Joana

J�lia

Pina

S�lvia

Marta

Ism�nia

Sofia

Amanda

 

 

 

A teia e a aranha

 

  

Ana olhava o jardim e lembrava-se das palavras que o padre tinha lhe dito. �� preciso admirar a obra do Pai, minha filha�, e a voz do velho preencheu os mais sombrios cantos, habitados sabe Deus por quais fantasmas de Ana. Olhava um pequeno ger�nio nascido no canteiro � esquerda da casa. Podia satisfazer-se com aquela beleza? E fazendo essa pergunta a si mesma, ia recortando no ar as figuras que lhe surgiam � mente. Pensava nos sonhos desenhados para um futuro que o tempo desmentiu, revendo em cada canto daquela casa, as cenas que constru�ram sua exist�ncia. Imaginava-se a aranha, quando na verdade descobriu-se inseto, enredada em teias que ela pr�pria ajudou a tecer.

Deixando de lado o livro que teimava em abrir, caminhou at� o gramado. Imaginou se haveria algum sentido maior do que sua vista podia alcan�ar naquela paisagem t�o harmoniosamente elaborada pelas m�os do homem: as rosas brancas, o jasmim perto das janelas, as azal�ias espalhadas por entre as pequenas pedras do caminho, os ger�nios. Olhava ainda as palmeiras que circundavam o pequeno p�tio, as samambaias com suas longas cabeleiras verde-musgo e as fruteiras para dar sombra. Tudo, por�m, lhe parecia est�ril. Sentia-se como uma velha constru��o, os canos cobertos pela ferrugem, as paredes �midas e o teto manchado pela fuligem.

Lembrou-se de Pina. Por onde andaria, agora? E as imagens da adolescente que foi tomaram-lhe de s�bito. Abandonada no banco cujo reparo passou a adiar, deixou-se banhar pelas �guas da mem�ria... Os sonhos, os projetos, a vida pintada com todos os matizes da liberdade. Pina seria bailarina, viajaria o mundo rodopiando sobre sapatilhas enquanto Ana prometia o riso e o choro que s� a fic��o perdoa. Falariam outras l�nguas, deitariam em len��is de cetim e deixariam na vida daqueles que porventura cruzassem seus caminhos, uma marca indel�vel.

            Com um suspiro que parecia ser o �ltimo, Ana procurou afastar-se daquele lago pl�cido que amea�ava transformar-se num rio de fortes correntezas. Sentia que estava muito pr�xima do fim e percebeu, vendo-se ali, sozinha, que de nada lhe adiantariam tais lembran�as. Tentou lan�ar-se na seguran�a de um bote � pensou que dali a uma semana a filha mais velha estaria casando -, mas era tarde. E antes mesmo que pudesse se levantar e apanhar novamente o livro, sentiu-se afogar como personagem de si mesma. Primeiro o casamento com Armando, e suas constantes mudan�as para acompanh�-lo, depois as filhas, a casa, as festas que devia organizar, as economias que insistia em fazer, e tudo, tudo que foi, aos poucos, afastando-a dos sonhos que antes alimentava. N�o que o casamento lhe roubasse a possibilidade de ser feliz. Afinal, pensava, quando decidiu largar o grupo para seguir o marido em sua carreira diplom�tica, Ana era a mais feliz das mulheres. Sim, tinha um marido a quem admirava e amava. E n�o se importava, dizia a todos e a si mesma, em abandonar a profiss�o.

         Mas os anos foram passando e, com eles, a leveza do corpo. Como se n�o bastassem as heran�as acolhidas pela maternidade, viu-se despojada de cuidados m�nimos que, agora, nenhuma diferen�a fazia. Havia se habituado ao calor que toda aquela gordura lhe proporcionava. Era quase como se pudesse se proteger dos medos que a vida solit�ria lhe prometia. N�o podia se queixar, talvez ela mesma n�o fizesse diferente se estivesse no lugar de Armando. Sim, certamente n�o se prenderia a uma l�gubre companhia tendo � frente uma brisa leve tocando o rosto. Por isso, talvez, perdoara o marido. Al�m do mais, tinham as filhas. T�o jovens e sonhadoras... N�o seria justamente ela quem colaboraria para esmaecer as cores escolhidas por suas meninas para pintar seus mundos. Afinal, que diferen�a faria dizer-lhes o quanto sofria? Pensando assim, Ana sentiu orgulho de si mesma. Era uma m�e devotada capaz dos maiores sacrif�cios. E havia sido uma boa esposa. Sim, sim, Armando mesmo fazia quest�o de dizer o quanto lhe era grato pelos anos passados juntos.

            Com um gesto que desenhava um enfado qualquer, Ana procurou afastar o pensamento de Armando. Era, sem d�vida, uma mulher que guardava alguma dignidade. Mesmo a gordura, n�o lhe impedia a altivez do andar e at� certa gra�a, diriam alguns. Vestia-se com bom gosto, conduzia uma conversa com a docilidade de um equilibrista e, vez ou outra, arriscava alguns coment�rios que deixavam transparecer a fineza dos pensamentos. Mas em que isso agora lhe podia ser �til? Afora o espa�o circundado por aqueles muros que protegiam a ampla casa, nada lhe despertava interesse. A verdade � que Ana habituou-se a respirar o ar rarefeito das ilus�es matrimoniais. E agora que este lhe faltava, n�o sabia sequer porque se levantar da cama.

            Com o casamento de Laura, a casa ficaria ainda mais vazia. N�o poderia contar com Lia, sempre t�o ocupada com seus cursos, viagens e namoros. Era necess�rio encontrar um novo sentido para os anos que lhe restavam e, talvez por isso, tivesse ido ao encontro do padre. Diziam-lhe que era um homem s�bio que ap�s ter perdido a fam�lia num acidente a�reo, resolvera dedicar-se � religi�o.

            Desde o primeiro encontro, o padre Paulo mostrou-se sol�cito para com Ana. Ela  falava por horas e horas e, quando cansava, permaneciam algum tempo em sil�ncio. Ana, de in�cio, n�o compreendia como um homem que mal abria a boca poderia ajud�-la. E ent�o ele falava. Geralmente sobre coisas das quais Ana n�o se recordava de ter observado antes. Uma vez contou-lhe uma hist�ria de uma esp�cie de p�ssaros que passa a vida � procura do parceiro, o �nico a dividir a continuidade da esp�cie. Nesse dia, Ana chorou. E, talvez para acalm�-la, o padre Paulo finalizou dizendo que apesar de n�o sermos da mesma fam�lia que esses p�ssaros, podemos voar como eles. �A senhora nunca sentiu isso antes?�, perguntou. �Ora, imagino que se a senhora se permitisse fechar os olhos e apagar da mente as lembran�as que tanto corroem seu esp�rito, sentiria, aos poucos, a leveza de asas que a levariam para lugares nunca antes visitados, a liberdade de voar, de sentir-se um p�ssaro, um instrumento de Deus ao sabor dos ventos�.

            Ana lembrava-se dessas palavras e procurava, quase inutilmente, algum sentido para a imagem sugerida pelo padre. �Um instrumento de Deus ao sabor dos ventos�... E tudo lhe parecia rid�culo, pueril. Sentiu-se de repente envergonhada por procurar a ajuda de um padre. Onde estava com a cabe�a? Levantou-se repentinamente e seguiu em dire��o a varanda. Estava subindo o terceiro degrau da escada quando ouviu um canto que lhe chamou a aten��o. Virando-se lentamente, Ana enxergou no galho mais baixo do jasmim, um pequeno p�ssaro. Voltou ao jardim e prostrada frente � ave colorida, deixou-se ficar em sil�ncio, admirando a obra de Deus.