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O �xtase de devo��o
Ism�nia apertava
nervosamente as m�os para logo em seguida uni-las com for�a. Orava como se
entregasse a um amante o corpo ardente, contraindo as p�lpebras, o peito, os
l�bios. O barulho das filhas n�o a incomodava. Sentia que precisava ser salva e
j� que lhe era vedado o sono artificial ou o descanso eterno, esperava
encontrar na f�, a dorm�ncia para continuar a vida. Seus pensamentos, por�m, a
tra�am. Eram torpes e maculavam a palavra divina. Carregada de raiva, n�o
perdoava a morte de Fernando. E se olhava para Sofia e Amanda, sentia �mpetos
de rasgar a carne, violar as tripas e libertar a dor que a corroia. A culpa por
sentir que as meninas n�o eram motivo suficiente para estar ali se misturava
com uma vaga lembran�a de amor materno. Em alguns momentos, enternecia-se
com a pequena Sofia. T�o calada, fr�gil, um graveto estalando no jardim. Com
Amanda era diferente. Talvez por ser mais velha, a m�e permitia-se imagin�-la
mais forte. No fundo, eram apenas crian�as, ela o sabia, mas estava al�m de sua
capacidade lembrar-se dos detalhes que ambas exist�ncias reclamavam. Com o livro a sua frente, ia
repetindo as frases num esfor�o sincero de cren�a. Ap�s algumas horas, sentia
que os joelhos pediam tr�gua e ent�o quedava-se na cama. E ficava im�vel, olhando
ora para o teto ora para as fotografias de Fernando. Quantas coisas tinham
feito! Gra�as � m�e, crescera com sede de vida e uma inclina��o para o
exerc�cio da liberdade. Achava-se especial e lhe pareceu natural quando seu
caminho cruzou o de Fernando. Estava na �poca em Madri. Fazia pouco mais de um
ano que viajava, com mochila nas costas, para diversos lugares. Ele, estudante
de arquitetura, acabara embarcando em seus destinos desconhecidos. Juntos conheceram Londres, Paris,
It�lia, Gr�cia, Pensilv�nia, a �frica e boa parte da �sia. Tamb�m viajaram
pelos pa�ses da Am�rica do Sul morando, por algum tempo, no Peru. Enquanto
Fernando aproveitava esses lugares para fotografar e estudar as diferentes
arquiteturas que encontrava, Ism�nia continuava a investir em seus interesses.
Falava cinco idiomas, tocava flauta e violino, aprendera a dan�ar o tango, o
flamenco e arriscara-se, na It�lia, a mexer com m�scaras. Quando engravidou de
Amanda, estavam morando num acampamento de volunt�rios no Qu�nia. E ali ficaram
at� a pequena completar tr�s anos. Os av�s, coitados, achavam isso uma loucura.
A m�e, por�m, jamais diria nada. Para ela, Ism�nia era a reden��o da av� que um
dia sonhara ganhar o mundo com a liberdade. Cinco anos depois, veio Sofia.
Estavam na Chapada dos Guimar�es vivendo numa comunidade alternativa. Foi por
essa �poca que Fernando come�ou a declinar no esp�rito aventureiro. �Precisamos
pensar nas meninas, Ism�nia. Acho que para elas seria melhor um lar definitivo,
um lugar onde pudessem estreitar la�os de amizade e tamb�m uma escola onde
possam terminar os estudos�, esse era seu argumento. E agora Ism�nia
perguntava-se porque havia cedido. Talvez, se n�o o tivesse feito, Fernando
ainda estaria vivo. Conheceriam outras cidades e as meninas aprenderiam um
mundo que os bancos de escola desconhecem. Engolindo o choro, voltava-se
novamente para as imagens colocadas ao lado da cama. Fechava os olhos e
iniciava o ritual de todos os dias. Disseram-lhe que a religi�o, ou Deus, ela
n�o lembrava mais, tudo curava. Mas ela nem sabia mais se o que procurava era
realmente a cura. Em seu �ntimo, achava apenas que estava fugindo e que, dessa
maneira, ningu�m lhe aborreceria. Tinha certa tranq�ilidade para fazer jejuns,
ficar em sil�ncio por um ou dois dias, trancar-se no quarto e debru�ar-se numa
conversa incompreens�vel com Deus. Gra�as � governanta e tamb�m �
sua m�e, n�o era solicitada para resolver os problemas das crian�as. N�o sabia
a escola que estudavam, mas tinham o que comer e n�o estavam doentes e, como
era vontade de Fernando, freq�entavam uma sala de aula comum. Para ela, isso
bastava e apenas uma vez, sentiu vergonha de si mesma. Estava fazendo suas
ora��es e notou que algu�m a observava. Quando virou-se, deu de cara com
Amanda, parada ao p� da porta. A menina n�o disse nada, mas Ism�nia p�de ler em
seus olhos o abandono e a raiva que tudo aquilo parecia lhe causar. Com voz
tr�mula, chamou a filha e simulou um abra�o carinhoso. Amanda n�o se mexeu. E
quando se afastou para fugir do quarto, a m�e adivinhou-lhe as l�grimas. O que poderia ela fazer? Sabia
que as meninas teriam suas pr�prias vidas - e torcia para que fossem t�o ricas
quanto a sua � enquanto que a ela, Ism�nia, nada restara. Somente aquele livro de
p�ginas finas com promessas de uma vida melhor ap�s a morte. Encontraria
Fernando no para�so? Esse era seu �nico alento. |