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O carneiro |
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Quem via as fotos espalhadas simetricamente por entre os corredores do
velho casar�o, jamais suspeitaria da beleza que outrora distribu�a aos ventos
aquela mulher. Nem mesmo eu, devo confessar, poderia supor que por detr�s
daqueles olhos tristes e gestos contidos � as m�os invariavelmente grudadas
sobre os joelhos fechados � repousavam as cinzas de uma figura cheia de gra�a,
beleza e alegria de viver. N�o fosse por um descuido seu, talvez eu nunca o
tivesse descoberto. Mas aquela caixa forrada de leve cetim fez surgir aos meus
olhos uma imagem completamente nova da mulher que eu supunha conhecer. Primeiro foram as fotografias. Amarradas cuidadosamente por fitas
coloridas e organizadas em pequenos montes, mostravam uma Pina sorridente, os
olhos quase a devorar de fome o lambe-lambe. Trajando roupas rendadas e soltas,
surgia em diferentes poses: em uma, fingia equilibrar-se � desenhando um t�nue
fio invis�vel � em um enorme banco de jardim; noutra aparecia fazendo caretas e
apontando para o c�u a cabeleira longa e cacheada. Eu ri quando vi �quelas
imagens. E depois, � medida que ia abrindo os montes e verificando as datas
escritas com fina caligrafia no verso de cada foto, um sentimento de horror
abateu-se sobre mim. Uma pessoa mais observadora teria dito que o futuro de Pina n�o seria
diferente do que realmente foi. Tive essa certeza quando passei a ler as linhas
da correspond�ncia trocada entre ambos. Logo nas primeiras cartas da mo�a, um
amor ardente e jovial parecia explodir no peito. Mas as respostas dele, sempre
contidas e repreensivas, certamente fizeram crescer em seu cora��o a certeza
angustiante de que era amoral deixar-se amar da maneira como at� ent�o sonhara.
Assim como as cartas � que passaram a ser pudicas, controladas, quase
um tratado de boas normas gramaticais -, as fotografias acompanharam a mudan�a
operada por ele. De m�os dadas, Pina sorria nervosamente, sem deixar � mostra
os belos dentes brancos. Os olhos, antes vivos e brilhantes, mostravam-se
quietos, baixos, contidos. No corpo, as vestes de ninfa foram dando lugar a
vestidos tesos, que escondiam a leveza das ancas. E em pouco tempo Pina j� era
a mulher dos quadros de fam�lia que sempre vi. Depois do casamento, e antes mesmo que viessem os cinco filhos, ele
obrigou-a a deixar os estudos. Tinha herdado da fam�lia o casar�o e levou para
l� a mulher. Sem muitos dotes para exibir na vida dom�stica, Pina sofreria tr�s
longos anos com uma sogra que n�o perdia uma oportunidade sequer de humilh�-la.
E foram tantas as vezes que ela ouviu ser um estorvo na vida dele, que acabou
por se resignar na condi��o que lhe haviam dado. Para tentar agradar ao marido e � sogra, Pina tornou-se uma ex�mia
dona-de-casa. Al�m de limpar sozinha todos os 12 c�modos da moradia, ela
lustrava, dia sim dia n�o, cada m�vel, bibel� e prataria. Costurava as meias do
marido, apertava os vestidos da sogra, limpava os sapatos, lavava as cortinas e
os tapetes. Da cozinha, sa�am doces, compotas e biscoitos que a fizeram ser
aceita pelo grupo de mulheres da Igreja. Pina havia se tornado uma mulher
exemplar. O que lhe dava, finalmente, o direito de parir os rebentos do marido.
E assim o fez. Depois de S�lvia, seguiram-se Marta, Lu�s, Francisco e,
por �ltimo, eu. Al�m do sil�ncio e da rigidez de meu pai, pouco lembro de sua
figura. Sei que viv�amos todos como que num eterno suspense. Em nossa casa,
nunca entraram outras crian�as que n�o fossem os primos paternos. Viv�amos no
sobressalto do ranger da porta principal. Quando ele chegava, a casa
silenciava. N�o me recordo de minha m�e falando nada a respeito, mas certamente
essa foi uma li��o que todos em casa aprenderam muito cedo: manter a boca
fechada. At� hoje me d�i o est�mago quando lembro de nossa imagem �s refei��es.
A respira��o fragmentada pelo medo, os talheres desenhando-se em movimentos
precisos, os copos bem seguros pelas m�os tr�mulas. Meu pai odiava que se
fizesse qualquer coment�rio � mesa e at� mesmo um simples tilintar no prato irritava-o.
E foram tantos gritos e copos jogados de impulso, que de susto em susto,
aprendemos a comer no vazio. Isso at� aquele domingo em que
Marta caiu no lago e sujou seu lindo vestido branco para tentar salvar um
passarinho que aprendia a voar. N�o sei se por triste displic�ncia ou
inconfess�vel alegria, minha m�e naquela noite n�o se conteve. Sorrindo e
falando quase animadamente � enquanto n�s prend�amos a respira��o � ela tentava
contar ao marido a travessura her�ica da filha. Marta, coitada, estava p�lida. Meu pai, na cabeceira da mesa, encrespava-se. Seus olhos pareciam
faiscar de �dio e na face surgiam enormes pintas vermelhas. �Cale a boca,
Pina!� De repente minha m�e pareceu dar-se conta da falta que havia cometido.
Envergonhada, foi engolindo mansamente o sorriso e a alegria das palavras para
deixar pesar sobre a mesa as m�scaras da obedi�ncia e s�plica. Seus olhos
morriam, encarando um a um os filhos. Calada, comeu cada peda�o de carne e aspargo do prato. Bebeu
o vinho, trouxe a sobremesa, comeu o doce de amoras. Depois retirou a mesa,
levou para ele o caf�, o licor, o charuto, as sand�lias. Movimentando-se como
no ar, e sem abrir a boca, vestiu nossos pijamas, nos colocando na cama e
depositando em cada testa, um leve e silencioso beijo. Na manh� seguinte, mandou-nos cedo para a escola e recomendou que n�o
nos atras�ssemos para o almo�o. Ela iria fazer carneiro assado, o prato
preferido de papai. Quando ele chegou, est�vamos todos banhados e aguardando a
autoriza��o para nos sentarmos � mesa. Minha m�e trajava um vestido azul �
recordo a cor porque at� ent�o n�o a tinha visto usar nada que n�o fosse cinza
ou preto. Sentou-se finalmente e, antes mesmo que pud�ssemos pensar em comer,
ela j� estava servindo os pratos. Em sil�ncio, depositou sobre a mesa um
pequeno frasco e disse quase sussurrando: consegui com a sua m�e aquela pimenta
que voc� tanto gosta. Sem mover um m�sculo da face, meu pai pegou o vidro
colorido com o intenso vermelho das malaguetas no azeite e distribuiu
generosamente em seu prato. Minha m�e, em sil�ncio, comia tranq�ila. De repente, algo estranho come�ou a acontecer. Silvia foi a primeira a
notar. Mas n�o ousava falar sequer uma palavra. Depois n�s todos come�amos a
nos olhar e em sil�ncio, interrog�vamos mam�e. Ela nada dizia. Seus olhos
estavam mudos, seus gestos, mais silenciosos do que nunca. Foi quest�o de
minutos at� o rubor das faces de papai se alastrar para as m�os e os bra�os
descobertos pela camisa. No meio do sil�ncio, ouviu-se depois o corpo caindo
duro sobre a mesa. Minha m�e, contudo, n�o se mexeu. A n�o ser para levar,
vagarosamente, o garfo do prato � boca. N�s, como que hipnotizados, fizemos a mesma coisa. Comemos todo o carneiro e apesar de n�o proferirmos uma palavra sequer, o sil�ncio n�o pesava em nossas almas. |