Ana

Laura

Lia

Joana

J�lia

Pina

S�lvia

Marta

Ism�nia

Sofia

Amanda

 

O carneiro

 

  

Quem via as fotos espalhadas simetricamente por entre os corredores do velho casar�o, jamais suspeitaria da beleza que outrora distribu�a aos ventos aquela mulher. Nem mesmo eu, devo confessar, poderia supor que por detr�s daqueles olhos tristes e gestos contidos � as m�os invariavelmente grudadas sobre os joelhos fechados � repousavam as cinzas de uma figura cheia de gra�a, beleza e alegria de viver. N�o fosse por um descuido seu, talvez eu nunca o tivesse descoberto. Mas aquela caixa forrada de leve cetim fez surgir aos meus olhos uma imagem completamente nova da mulher que eu supunha conhecer.

Primeiro foram as fotografias. Amarradas cuidadosamente por fitas coloridas e organizadas em pequenos montes, mostravam uma Pina sorridente, os olhos quase a devorar de fome o lambe-lambe. Trajando roupas rendadas e soltas, surgia em diferentes poses: em uma, fingia equilibrar-se � desenhando um t�nue fio invis�vel � em um enorme banco de jardim; noutra aparecia fazendo caretas e apontando para o c�u a cabeleira longa e cacheada. Eu ri quando vi �quelas imagens. E depois, � medida que ia abrindo os montes e verificando as datas escritas com fina caligrafia no verso de cada foto, um sentimento de horror abateu-se sobre mim.

Uma pessoa mais observadora teria dito que o futuro de Pina n�o seria diferente do que realmente foi. Tive essa certeza quando passei a ler as linhas da correspond�ncia trocada entre ambos. Logo nas primeiras cartas da mo�a, um amor ardente e jovial parecia explodir no peito. Mas as respostas dele, sempre contidas e repreensivas, certamente fizeram crescer em seu cora��o a certeza angustiante de que era amoral deixar-se amar da maneira como at� ent�o sonhara.

Assim como as cartas � que passaram a ser pudicas, controladas, quase um tratado de boas normas gramaticais -, as fotografias acompanharam a mudan�a operada por ele. De m�os dadas, Pina sorria nervosamente, sem deixar � mostra os belos dentes brancos. Os olhos, antes vivos e brilhantes, mostravam-se quietos, baixos, contidos. No corpo, as vestes de ninfa foram dando lugar a vestidos tesos, que escondiam a leveza das ancas. E em pouco tempo Pina j� era a mulher dos quadros de fam�lia que sempre vi.

Depois do casamento, e antes mesmo que viessem os cinco filhos, ele obrigou-a a deixar os estudos. Tinha herdado da fam�lia o casar�o e levou para l� a mulher. Sem muitos dotes para exibir na vida dom�stica, Pina sofreria tr�s longos anos com uma sogra que n�o perdia uma oportunidade sequer de humilh�-la. E foram tantas as vezes que ela ouviu ser um estorvo na vida dele, que acabou por se resignar na condi��o que lhe haviam dado.

Para tentar agradar ao marido e � sogra, Pina tornou-se uma ex�mia dona-de-casa. Al�m de limpar sozinha todos os 12 c�modos da moradia, ela lustrava, dia sim dia n�o, cada m�vel, bibel� e prataria. Costurava as meias do marido, apertava os vestidos da sogra, limpava os sapatos, lavava as cortinas e os tapetes. Da cozinha, sa�am doces, compotas e biscoitos que a fizeram ser aceita pelo grupo de mulheres da Igreja. Pina havia se tornado uma mulher exemplar. O que lhe dava, finalmente, o direito de parir os rebentos do marido.

E assim o fez. Depois de S�lvia, seguiram-se Marta, Lu�s, Francisco e, por �ltimo, eu. Al�m do sil�ncio e da rigidez de meu pai, pouco lembro de sua figura. Sei que viv�amos todos como que num eterno suspense. Em nossa casa, nunca entraram outras crian�as que n�o fossem os primos paternos. Viv�amos no sobressalto do ranger da porta principal. Quando ele chegava, a casa silenciava. N�o me recordo de minha m�e falando nada a respeito, mas certamente essa foi uma li��o que todos em casa aprenderam muito cedo: manter a boca fechada.

At� hoje me d�i o est�mago quando lembro de nossa imagem �s refei��es. A respira��o fragmentada pelo medo, os talheres desenhando-se em movimentos precisos, os copos bem seguros pelas m�os tr�mulas. Meu pai odiava que se fizesse qualquer coment�rio � mesa e at� mesmo um simples tilintar no prato irritava-o. E foram tantos gritos e copos jogados de impulso, que de susto em susto, aprendemos a comer no vazio.

 Isso at� aquele domingo em que Marta caiu no lago e sujou seu lindo vestido branco para tentar salvar um passarinho que aprendia a voar. N�o sei se por triste displic�ncia ou inconfess�vel alegria, minha m�e naquela noite n�o se conteve. Sorrindo e falando quase animadamente � enquanto n�s prend�amos a respira��o � ela tentava contar ao marido a travessura her�ica da filha. Marta, coitada, estava p�lida.

Meu pai, na cabeceira da mesa, encrespava-se. Seus olhos pareciam faiscar de �dio e na face surgiam enormes pintas vermelhas. �Cale a boca, Pina!� De repente minha m�e pareceu dar-se conta da falta que havia cometido. Envergonhada, foi engolindo mansamente o sorriso e a alegria das palavras para deixar pesar sobre a mesa as m�scaras da obedi�ncia e s�plica. Seus olhos morriam, encarando um a um os filhos. Calada, comeu  cada peda�o de carne e aspargo do prato. Bebeu o vinho, trouxe a sobremesa, comeu o doce de amoras. Depois retirou a mesa, levou para ele o caf�, o licor, o charuto, as sand�lias. Movimentando-se como no ar, e sem abrir a boca, vestiu nossos pijamas, nos colocando na cama e depositando em cada testa, um leve e silencioso beijo.

Na manh� seguinte, mandou-nos cedo para a escola e recomendou que n�o nos atras�ssemos para o almo�o. Ela iria fazer carneiro assado, o prato preferido de papai. Quando ele chegou, est�vamos todos banhados e aguardando a autoriza��o para nos sentarmos � mesa. Minha m�e trajava um vestido azul � recordo a cor porque at� ent�o n�o a tinha visto usar nada que n�o fosse cinza ou preto. Sentou-se finalmente e, antes mesmo que pud�ssemos pensar em comer, ela j� estava servindo os pratos. Em sil�ncio, depositou sobre a mesa um pequeno frasco e disse quase sussurrando: consegui com a sua m�e aquela pimenta que voc� tanto gosta. Sem mover um m�sculo da face, meu pai pegou o vidro colorido com o intenso vermelho das malaguetas no azeite e distribuiu generosamente em seu prato. Minha m�e, em sil�ncio, comia tranq�ila. 

De repente, algo estranho come�ou a acontecer. Silvia foi a primeira a notar. Mas n�o ousava falar sequer uma palavra. Depois n�s todos come�amos a nos olhar e em sil�ncio, interrog�vamos mam�e. Ela nada dizia. Seus olhos estavam mudos, seus gestos, mais silenciosos do que nunca. Foi quest�o de minutos at� o rubor das faces de papai se alastrar para as m�os e os bra�os descobertos pela camisa. No meio do sil�ncio, ouviu-se depois o corpo caindo duro sobre a mesa. Minha m�e, contudo, n�o se mexeu. A n�o ser para levar, vagarosamente, o garfo do prato � boca.

N�s, como que hipnotizados, fizemos a mesma coisa. Comemos todo o carneiro e apesar de n�o proferirmos uma palavra sequer, o sil�ncio n�o pesava em nossas almas.