Ana

Laura

Lia

Joana

J�lia

Pina

S�lvia

Marta

Ism�nia

Sofia

Amanda

 

Sobre c�rculos e almofadas

Marta sorria enquanto segurava nervosamente o terceiro cigarro. As palavras, atropeladas por sua compuls�o, escondiam uma infelicidade qualquer. Al�m das m�os inquietas � que arrumavam os cabelos alinhados ou gesticulavam quase expressivamente -, tentava imprimir na conversa uma euforia mal disfar�ada pelos olhos ainda melanc�licos. Falava de novas conquistas, viagens r�pidas e a �ltima novidade: estava trabalhando.

Eu escutava em sil�ncio. Fingia interesse pela conversa e demonstrava profunda satisfa��o em v�-la t�o bem. Tivesse ela um pouco de sensibilidade, por�m, teria percebido o quanto sua presen�a me incomodava. Mas n�o, essa era uma de suas mais irritantes caracter�sticas. O mundo, para Marta, podia ser constru�do e desconstru�do quantas vezes fossem necess�rias desde que permanecesse sobre seu dom�nio de vis�o, perspectiva ou fantasia.

Enquanto falava, apagava, acendia, tragava seus cigarros, eu me perdia nas lembran�as de um passado remoto. E sem que Marta se desse conta, sofria vendo-a assim, desfigurada pelas feridas ainda abertas, interpretando um papel que a tornava rid�cula, quase simpl�ria.

Em nada se parecia com a mulher de antes. Na praia, � noite, seus p�s valsavam por entre dunas e v�us de gaze transparente. N�o era de muito riso mas possu�a uma tez luminosa, vibrante at�. A voz, entrecortada de sil�ncios que denunciavam mundos indevass�veis, era suave, tranq�ila, como uma coda em constante constru��o. Eu, amante que era dos mist�rios deste mundo, encantava-me com a mistura angelical e demon�aca de Marta. E sentia-me cada vez mais preso aos devaneios daquele anjo que, em alguns momentos, parecia-me ca�do.

Olhando assim, de longe, n�o tenho muito do que me queixar. Foram anos intensos e desesperadores. Parec�amos personagens de alguma trag�dia shakespereana inventando, na agonia, aquilo que para Marta lhe parecia amor. Ao seu lado, descobri-me feio, belo, triste, alegre, impotente, um le�o capaz de rasgar em peda�os o inimigo. Fiz-me louco, vulner�vel, impaciente. Fiz-me terno, d�cil, amigo. No fim, n�o suportei minhas pr�prias inquieta��es e deixei-me levar pelos mais negros ventos que escondem uma alma pl�cida.

Ap�s o rompimento, achei melhor viajar. Foi quando conheci Lia, meiga e calma, Lia. T�o diferente de Marta, mas t�o necess�ria em minha vida agora arrumada, tranq�ila e, arrisco dizer, at� previs�vel. Talvez por isso me incomodasse tanto v�-la ali, entre as almofadas compradas por Lia, devorando seus cigarros e escondendo na fuma�a um turbilh�o de sentimentos que t�o bem conheci.

De repente senti o sangue congelar. Marta, em sil�ncio, deixou o olhar perder-se naquele ponto invis�vel, long�nquo, impenetr�vel. E mil lilases seriam insuficientes para dizer do brilho que vislumbrei em seus olhos. A mesma dor calada, o pulso quente, o fogo indivis�vel das paix�es queimava em suas pupilas. Senti-me roubado, tra�do, desamparado. Quis pedir-lhe que se retirasse, mas permaneci im�vel. E minha respira��o, que tentei interromper para n�o quebrar a alquimia do sil�ncio, tornou-se ofegante. Imaginava Lia entrando pela porta, com suas sacolas e o sorriso aberto, interrompendo com seus saltos e a simpatia incontida aquele sil�ncio.

O sil�ncio. O sil�ncio de Marta falava-me mais do que qualquer outra palavra que ela pudesse ter pronunciado at� ent�o. N�o resistindo mais, deixei-me levar pelos caminhos percorridos por ela. Vi-me em campos desnudos de verde e flores, construindo altares a deusas pag�s; balancei-me em cordas penduradas num c�u de azul esmaecido e mergulhei em �guas que mais pareciam po�as de lodo e barro. Senti-me voltando ao p�, membros e  carne transformados em nada. Tremendo, quis pedir-lhe que parasse, que voltasse, que me largasse novamente na rica poltrona na qual eu me recostava h� apenas alguns segundos.

N�o sei ao certo quanto tempo permanecemos nessa agonia. Sei que quando finalmente Marta saiu do seu transe retornando para o papel que encenava, eu me encontrava morto. N�o que meus m�sculos estivessem paralisados ou que o pequeno e safenado cora��o tivesse parado. Funcionavam perfeitamente. Mas algo me havia sido novamente tirado. E Marta sabia disso. Acendendo seu �ltimo cigarro, meneou levemente a cabe�a e disse-me que estava tarde, precisava ainda passar na livraria e, depois, seguir para o trabalho. Ah, o trabalho, acabou n�o me contando como estava sendo mas prometia voltar outra vez para falar-me em detalhes. Eu sorri. E, mesmo sem acreditar no que estava dizendo, disse-lhe que era sempre bem vinda. Lia iria adorar conhec�-la e poder�amos tomar todos um bom vinho, saboreando a melhor lasanha da cidade.