Ana

Laura

Lia

Joana

J�lia

Pina

S�lvia

Marta

Ism�nia

Sofia

Amanda

 

Um bibel�

 

 

Herdei de minha m�e a sublime arte de ser agrad�vel, irrepreens�vel. N�o que a tenha conhecido bem � lembro-me vagamente de alguns beijos na testa e de sua cabeleira arco-�ris caindo varanda abaixo � mas pelo que falam meus av�s. Cresci entre paredes confort�veis, bibel�s que n�o se arrastavam dos lugares, pratos finos sobre a mesa e uma enorme biblioteca cujos livros nunca sa�am de onde estavam. Estudei nas melhores escolas,  tinha um guarda-roupa de dar inveja a qualquer menina da minha idade e n�o falava palavr�es. Seguia, como minha m�e, a rotina de toda pessoa normal e, principalmente, bem-educada. �� um anjo de candura, essa crian�a�, �Que menina especial!�, diziam todos.

            Se tomada pelo enorme desejo de gritar, podia-o fazer com os empregados. No mais, seguia a vida como a moldavam para mim. Era realmente uma criatura sem os defeitos do choro � que cedo aprendi a engolir -, da birra � que logo soube disfar�ar � e da vontade pr�pria � que soube dobrar �s alheias. � verdade que reservava, na aus�ncia dos olhos que me seguiam, algumas pequenas maldades. E quando assim o fazia, desculpava-me no espelho, dormindo com a certeza de que eu era realmente tudo aquilo que me diziam.

            Quando entrei na adolesc�ncia, freq�entei todas as festas da sociedade. As melhores fam�lias e os melhores partidos. Continuei sem precisar abrir a boca. Era bonita, bem arrumada e j� sabia com perfeita exatid�o o que esperavam de mim. Houve, por�m, uma �poca, que senti pesar a m�scara que carregava. Foi quando comecei a namorar. Ser santa, quando o corpo reivindica suas vilanias, n�o era t�o f�cil quanto ficar calada, engolir o choro, parecer solid�ria. Resisti at� onde pude, mas depois, dobrei-me como os juncos nos vendavais. Com a habilidade de uma gueixa e a necessidade de uma puta, consegui tudo o que quis. Destru� lares sem gra�a, apimentei o ci�me de casais apaixonados, acabei com a reputa��o de umas poucas mulheres, fiz sofrer pobres coitados que acreditavam em minha generosidade. Aos meus av�s nada mudaria a imagem t�o bem constru�da de boa mo�a e, de resto, � sociedade pouco importava as sujeiras � desde que fossem bem encobertas.

            Pude ent�o respirar aliviada. E deixar-me levar � sem nenhuma culpa � pelos desejos mais escondidos e verdadeiros de minha alma. Fui mesquinha, trai�oeira, mentirosa, arrogante, insens�vel.

            Hoje sei a dose exata da boa imagem que todos precisamos zelar. Um sorriso na hora certa, uma mentira agrad�vel � porque poucos suportam a verdade -, um jeito previs�vel de ver o mundo, e todas as portas do c�u abrem-se para mim.