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Simulacro de perfei��o Lia olhava as
fotos dispostas num suntuoso aparador e pensava o quanto era feliz. Tinha
conhecido Cl�udio em uma viagem � Gr�cia � pa�s, ali�s, que detestava. E n�o
fosse por ter encontrado o futuro marido, jamais se perdoaria por ter trocado
Miami por um cruzeiro �s ilhas gregas. Lembra como se fosse hoje a m�e
insistindo para que ela e Laura aceitassem o presente do pai: �Laura, minha
filha, v� com sua irm�. Vai lhe fazer bem�. Mas, coitada de Laura, quem disse
que algu�m conseguia convenc�-la de sair? Tocando com as
pontas dos dedos a fotografia de casamento, Lia teve um leve estremecimento.
Desde que haviam se conhecido, evitava pensar sobre o assunto que vez ou outra
lhe retornava ao cora��o. Cl�udio a amaria? Mas antes mesmo que pudesse pensar
em responder, fez um gesto de quase desd�m, olhou-se no espelho, arrumou os
cabelos e observou uma pequena mancha pr�ximo ao olho esquerdo. Isso sim era
importante, pensou. Ligaria pela manh� mesmo para sua dermatologista marcando
uma consulta. Afinal, Cl�udio adorava v�-la sempre bonita, bem cuidada. E
tamb�m admirava a capacidade que tinha de administrar a casa. Vendo-a assim,
perdida entre as certezas que encontrava para seduzir e manter feliz o marido,
ningu�m arriscaria supor que Lia n�o fosse realmente a mulher que todo homem
procura. Tudo bem que na adolesc�ncia, pouco se importava com os cuidados que a
m�e tinha na casa � e �s vezes at� os ridicularizava. N�o conseguia imaginar-se
cuidando de roupas, comidas e de recep��es para os amigos de um marido. Mas o
tempo passa e os interesses mudam. Depois de ter
conhecido Cl�udio, achou melhor deixar para tr�s a faculdade de publicidade,
descobriu que n�o tinha nascido mesmo para trabalhar, ganhar mercado, essas
coisas. A essa escolha, vieram as compras cada vez maiores em lojas de roupas,
as visitas �s casas de decora��o, as assinaturas de revistas de beleza e mais
livros e livros de etiqueta, como fazer um homem feliz, a esposa perfeita etc. Sentia-se uma
privilegiada. Tinha um bom marido, ostentava uma grossa alian�a no dedo, podia
fazer boas compras, ter tempo livre, enfim, era feliz. Sim, pensou, era
realmente feliz. N�o tinha amigos � sua prud�ncia fez ver que n�o combinavam
com os gostos de Cl�udio -, mas achava que, aos poucos, estava sendo aceita
pelo c�rculo de amizade do marido. Achava-os um tanto esnobes, � verdade, mas
n�o se incomodava. E quando algum tentava provoc�-la perguntando sobre um
romance tal ou um escritor x, sa�a pela tangente oferecendo um pouco mais de
vinho ou um canap� de camar�o. No fim, todos sa�am de sua casa com a mesma
impress�o de Cl�udio: Lia era um doce de perfei��o. No entanto,
ela achava que Cl�udio, apesar de estar sempre lhe dizendo o quanto a achava
meiga, n�o valorizava seus esfor�os. As almofadas, por exemplo. Tinha-as
comprado por uma fortuna e quando Lia o chamou para ver, disse apenas: �s�o
lindas, meu bem�. Lia, claro, nunca reclamou. Aprendeu que o marido � fisgado
pela calmaria e, portanto, n�o se atrevia, em nenhuma hip�tese, a fazer o que a
maioria das mulheres faria em algumas ocasi�es: discutir a rela��o. Nem mesmo quando chegou em casa e encontrou Cl�udio calado, com o olhar
t�o perdido quanto no dia que se conheceram, Lia cobrou-lhe alguma coisa. Sentiu
um perfume feminino na sala, misturado com o cheiro de cigarro que impregnava
suas lindas almofadas. Tamb�m percebeu que o marido n�o escutava o que estava
tentando lhe contar. Mas nada daquilo, pensava, poderia lhe afetar o lar. Por
isso, Lia n�o se abalou. Tinha suas armas e logo mais, daria a ele a �ltima
cartada. E assim foi.
Durante o jantar, fez-se ainda mais doce, sol�cita, perfeita. N�o perguntou
nada, e nem sequer mencionou o fato de os cinzeiros, que nenhum dos dois
usavam, estarem abarrotados. Depois da mousse de chocolate � a sobremesa
preferida de Cl�udio -, do caf� e do licor, Lia disse apenas: estou esperando um
filho. E sem olhar para o marido, continuou: se for menino, gostaria que se
chamasse Cl�udio. Se for menina, Joana. Voc� concorda, meu bem? |