Os pombos

Porque a menina chora

A abstin�ncia da palavra?

Desejo

O caminhar

 

A solid�o arrisca novos passos. E o sil�ncio da noite e das palavras desenha enormes mosaicos de interroga��es e l�grimas. Da janela entreaberta do quarto, escuto correr os carros. Imagino far�is perdidos nesta vaga ilus�o de espera, fio de �gua cortando s�lidas rochas. Com um olhar perdido de gueixa, penso numa triste can��o. E o que me resta, sen�o entoar estranhos sons de melancolia? Posso, � certo, fazer do rosto um carnaval de m�scaras: um sorriso aqui e uma alegria ali para deixar tranq�ilos os transeuntes. No mais, guardar a r�stia de for�a para fazer ninar o medo quando se fecharem, por tr�s de mim, as portas que me guardam o quarto.

 Encarar, ent�o, esse bicho estranho, face horrenda tra�ada na inquietude dos anos, e deixar que a prece adorme�a a f�ria lancinante dos gestos. N�o � poss�vel, agora, olhar-me sem culpa no espelho. Nem tampouco sorrir. N�o h� como seguir impune sobre os vendavais que fa�o correr dentro e fora de mim. Eu precisaria saber calar, antes, o medo. Porque ao contr�rio do que pareceria justo, � ele quem me empurra e me faz lan�ar sob o desfiladeiro. Esse estreito e sinuoso caminho que pare�o ter necessidade de percorrer. Como um suicida em potencial. Um kamikase sem p�tria nem honra para defender.

Depois da noite, a manh�. Olho o c�u e procuro encontrar for�as para n�o partir. Os pombos se escondem da chuva fina, um casal se banha alheio �s minhas idiossincrasias.

            Tentar, talvez, um m�todo tr�gico: o sil�ncio, a fome calada, o grito mudo. N�o assustar a plat�ia, n�o manchar o palco armado na embarca��o nem deixar que respingue o sangue na roupa do contramestre. Dizem-me que � preciso viver. Mas a chuva me encarcera. Ficar sem comer. Ficar sem falar. Ficar sem beber. Ficar sem fumar. Apenas ficar. Para que a culpa n�o pese. E quem saber� do que se passa em mim?

Eu poderia, caso o quarto fosse suficientemente alto, atirar-me ao ch�o. Transformar-me em uma massa disforme e ensang�entada. E a vida continuaria. Com suas festas, risos e compromissos. A vida continuaria porque aqui n�o h� nada que valha cinco minutos de aten��o. Os vel�rios passam como circos: durma, querida. Voc� precisa descansar.

A chuva cai. Os pombos se banham. Eu olho a janela.