Depois de quatro meses sem conseguir uma linha de telefone residencial, resolvi comprar um celular. Como em outras ocasi�es recentes, tive que explicar � vendedora � que me cobrava um comprovante de resid�ncia � o motivo pelo qual minha conta de luz chegava no n�mero 45 da Rua da Saudade, j� que meu endere�o era Beco da Saudade, 53.
Na verdade, me lembro de ter crescido no Beco da Saudade, 21. Mas veio a Prefeitura e colocou uma placa 53 na casa. N�o sei se houve acordo, para tanto desacordo, porque a Companhia de Luz me diz que o n�mero � 45.
E n�o � s� isso. Minha amiga de inf�ncia, D�bora, apesar de morar em frente a minha casa, reside na Rua da Alegria. Um outro vizinho, �quele de quem compro �gua e g�s, e que mora alguns passos acima, colocou uma placa para lembrar ao carteiro que seu endere�o fica na Travessa da Alegria. N�o vou nem entrar no m�rito de discutir a localiza��o do bairro, o que renderia mais um par�grafo de confus�o.
N�o sei se o carteiro anda sabendo disso. O fato � que minha correspond�ncia, mesmo a contragosto, deveria estar chegando no n�mero 53. At� umas duas semanas atr�s n�o estava muito preocupada com tanto desvario mas comecei a receber em casa contas, correspond�ncia banc�ria e informes m�dicos de Willian John Woods, que mora na Rua da Alegria, 53. Apesar da semelhan�a com o n�mero, n�o temos, infelizmente, nenhum m�dico na fam�lia. Nem tampouco coube, ao meu velho av�, sobrenome t�o pomposo. Portanto, sr. Woods, espero que, caso receba cartas para um humilde Silveira, d� a elas o mesmo destino que eu �s suas: um envelope pardo com a promessa futura de procurar o verdadeiro dono.
Se isso acontecer, � poss�vel que haja alguma altera��o no seu sono. Eu, por exemplo, n�o durmo mais t�o leve, j� que por sobre a mesa da sala meus olhos encostam sempre sobre aquele envelope grande, que se avoluma a cada dia que passa. Mas sr. Woods, se o tempo me tem sido t�o ex�guo, imagino que para o senhor ele pare�a ainda menor. Afinal, de quantos males da alma e do corpo a medicina se ocupa hoje?
Sei que tudo isso poderia ser evitado, caso o ilustre prefeito n�o houvesse resolvido passar por cima de anos e anos de cartas e telegramas com endere�o certo. A verdade � que ando preocupada e daqui a pouco vou achar que minha casa n�o � mais minha casa. E j� que nunca encontro com o carteiro para lembr�-lo que ainda moro no mesmo lugar, s� me resta torcer para que o sr. Woods tenha paci�ncia e que nosso prefeito resolva, assim como fez com os n�meros, colocar placas nas ruas. Quem sabe assim, eu possa voltar a dormir tranq�ila, sabendo que mister Woods ficar� a par das �ltimas novidades da Associa��o Brasileira de Medicina, enquanto recebo no Beco da Saudade 53 (antigo 21), not�cias do Reino de Jambom.
(Publicada na edi��o n� 1, novembro de 1999, da revista outraspalavras)