Acabo de voltar de uma festinha de anivers�rio e o amigo, vendo meu embara�o com pratos de bolo, brigadeiros e chap�u, se disp�e a atravessar a rua e a abrir o port�o de minha casa. A filha, diz ele, vai depois. Subo as escadas pensando no doce que carrego nas m�os e s� depois me ocorre que deveria ter me oferecido para ajudar na limpeza da casa. Sei que a cena parece corriqueira mas � que ela me faz pensar nas rela��es de amor e afeto que vamos construindo ao longo da vida.
Meu vizinho, por exemplo, gosta de lembrar que depois de dez anos estamos voltando aos tempos da x�cara de a��car. � que tenho o p�ssimo h�bito de n�o olhar os arm�rios antes do supermercado e nenhum pudor em bater � porta do amigo que j� me cedeu dois ovos, farinha para o mingau e manteiga. Isso sem falar no pirex de assar peixe que de tanto eu pedir emprestado, ele resolveu que era melhor deixar comigo com a promessa de que pediria de volta quando precisasse. At� hoje n�o pediu. E o pirex continua servindo para fazer os peixes e as massas que eventualmente levo � mesa.
Isso me faz pensar nos anos em que morei no Rio de Janeiro. Foi l� que aprendi que quando vemos um amigo e ele diz �vamos nos encontrar esta semana, eu te ligo� nem sempre significa compromisso firmado. � claro que isso n�o se aplica �s amizades acreanas, onde a promessa de um pato ou rabo � no tucupi � � religiosamente cumprida. Veja o leitor, por exemplo, o caso da x�cara de a��car. Certamente que no Rio me faltou algumas vezes � culpa da lista de compras � mas n�o me recordo de ter batido � porta do vizinho da frente ou dos lados. Na verdade, n�o lembro sequer de t�-los conhecido. Sei apenas que um deles tratava-se de um senhor de meia idade com manias extravagantes como andar de cuecas e touca pelo apartamento. Gostava de bisbilhotar a vida alheia pelas venezianas semicerradas e cantarolava algumas m�sicas de Cauby Peixoto na hora do banho. No mais, apenas um �bom dia� no elevador.
N�o �, portanto, � toa que tenho me desdobrado para reaprender, com os amigos que aqui deixei e os novos que tenho feito, a singela arte de trocar x�caras, pratos, ombros e outras gentilezas. Nem sempre acerto, � verdade. Mas n�o me faltam as boas inten��es. Prova disso � que tenho tido o cuidado de separar, para o meu amigo e vizinho, algumas mangas ou cupua�us do quintal, e se n�o lhe mandei ainda um peda�o de bolo � que realmente n�o os tenho feito.
Al�m da fatia de bolo, sei que me faltam outras retribui��es de apre�o. Mas acredito que os amigos, assim como o tempo, moldam-se sem pressa.
(Publicada na edi��o n� 10, dezembro de 2000, da revista outraspalavras)